1. Desde quando você começou a se envolver com a música? Sei que seu pai Konkoba Kabinet Kouyate o influenciou muito para tocar o instrumento Kora. Conte-nos um pouco sobre como e quando a música começou a fazer parte da sua vida.
Eu sempre estive envolvido com a música. É parte do dia-a-dia da vida na vila Siguiri, onde eu nasci. Você acorda pela manhã ao som dos balafons. Estou tentando manter isto em meu trabalho, e eu estou contente que ainda se pode ouvir os balafons tocando em Siguiri.
Meu pai me influenciou em todas as áreas de minha vida. Ele me disse para nunca ter medo de coisas novas, mas sim, de vive-las, e eu sempre tento seguir este conselho.
2. Quais são os elementos que compõe sua música basicamente? Você se inspira muito no Jazz e ritmos tradicionais do oeste africano, não é verdade?
Sim, o Jazz e os ritmos tradicionais me inspiram muito. Aqui, na Bélgica, eu toco com Cris Joris, e eu aprecio a improvisação e a liberdade do Jazz. Eu também tenho muitas outras influências da minha infância, o Blues americano e Funk, Soul... Eu lembro quando um primo meu voltou da América e trouxe uma mala cheia de fitas cassete. Então, eu conheci Aretha Franklin, uma das minhas preferidas. As músicas daquela mala fizeram minha adolescência, no que diz respeito ao estilo da minha música. Além disso, eu gosto de Harry Belafonte, e eu acho que ele me influenciou em algumas de minhas músicas, que algumas vezes tem um pouco do estilo calypso. Meu pai adorava escutar Harry Belafonte também, e toda vez que eu o escuto, eu lembro do meu pai. Eu também adoro música clássica, especialmente Mozart, e eu acho a música dele uma influência mais calma pra mim.
3. É recente a formação do grupo Dunyakan que acompanha você em seus shows? Quais são os instrumentos e músicos que acompanham essa formação?
Não, o grupo existe desde 1996, depois que eu me mudei para Bruxelas. Dunyakan significa "A voz do mundo". É meu sonho continuar com Dunyakan, e ver o grupo crescer e evoluir.
É claro que nós temos os instrumentos kora e balafon no grupo, e também percussão africana como o djembe e doundoun, e agora nós temos guitarra, tocada pelo meu sobrinho Mady Kouyate. Nós também incorporamos bateria e baixo. Uma coisa que eu gostaria de fazer é trazer instrumentos clássicos tradicionais para o grupo, e ver o que acontece.
4. N´faly, você canta e toca um instrumento africano chamado Kora. De que região da África exatamente veio o Kora? Conte-nos um pouco sobre esse instrumento mágico.
Sim, eu realmente acho que o kora é um instrumento mágico. Diferentes formas do kora e instrumentos de corda são tocados por toda a África. É uma forma de harp-lute. Meu kora tem vinte e uma cordas, e é o instrumento do griot. Como um Kouyate, eu sou um griot ou um contador de histórias, a “biblioteca ambulante” de meu povo e de sua história. Nós costumávamos tocar pra os reis, mas agora nós tocamos par todo mundo! Mas os griots têm se apresentado desde o século 10.
5. Você nasceu em Guinea, mas onde você reside atualmente?
Agora eu estou morando em Bruxellas, onde eu tenho minha família. Nós também temos uma escola de música, Cadence Mandingue, onde nós ensinamos kora, balafon, polyphonys africanos, djembe e doundoun. Outra área ao qual eu tenho muito interesse são os polyphonys africanos, e eu aprecio extremamante a oportunidade de trabalhar nesta área.
6. Conte-nos um pouco sobre essa iniciativa educacional e cultural que você criou chamada Namunkanda.
Namunkanda significa, na língua malinke, "A defesa da cultura". No Namunkanda, nós tentamos abordar todas as culturas, para promover harmonia entre elas, o que é muito importante. Mas nós também tentamos ensinar sobre a cultura Mandingue, e nós esperamos que esta cultura maravilhosa permaneça viva e vibrante. Assim como os balafons que ainda tocam em Siguiri pela manhã, eu espero mostrar às pessoas que nossa cultura é linda, mas que também pode sobreviver no mundo moderno.
7. Acredito que se pode transmitir diferentes energias e inúmeras mensagens às pessoas através de uma música. E muito além disso, conseguir diminuir muitos problemas que existem na sociedade e no mundo. Como você acha que este "instrumento" está sendo usado atualmente?
Eu acredito nisso também. Quando as pessoas vão ao meu show, elas podem não estar familiarizados com os instrumentos diferentes, até mesmo quanto a minha roupa, mas quando nós começamos a tocar, isto não importa mais. Isto é uma janela para outros mundos, uma janela poisitiva, e isto é uma coisa importante que a música faz. E isto também é uma parte importante do que Namunkanda espera fazer, abrir essa janela.
8. Você também faz parte do popular grupo Afro-Celts que fusiona música africana, irlandesa e outros ritmos contemporâneos, como por exemplo a música eletrônica. Como você conheceu o Afro-Celts e o que significa para você fazer parte de um trabalho que mistura tantas influências musicais?
No início, eu não sabia se o meu instrumento tão antigo poderia ser incorporado a algo tão moderno, tão tecnológico. Mas então, eu pensei no que meu pai sempre me dizia, sobre não ter medo, então eu pensei que tudo estaria bem e “fui em frente”. Então eu vi que tudo isso era algo para se encoragar.
Eu fui convidado a fazer parte do Afro-Celts depois que James McNally me viu em uma apresentação em Londres, antes do show de Salif Keita, que tinha feito a abertura. Ele foi para traz do palco e levou a sua flauta! Isto me surpriendeu muito naquela época, mas agora não, já o conheço muito bem. Era exatamente o que ele faria! Nós tocamos juntos, e ele me convidou para nos apresentármos juntos. Depois, eu fui convidado a fazer parte do grupo.
É sempre muito inspirador trabalhar com tantos ritmos e instrumentos, e eu chamo isto tudo de uma “grande salada”, uma mistura de tudo. Mas funciona e é sempre muito inspirador.
9. Alguns ritmos da música brasileira têm muita semelhança com a música africana devido a vinda e permanência de muitos escravos negros no Brasil. Você gosta da música brasileira? Quais são os artistas que você conhece e gosta? Você tem planos para vir ao Brasil?
Eu adoraria ir ao Brasil e levar o meu grupo.
Eu aprecio o sentimento africano em muitas músicas brasileiras, os ritmos e também os vocais maravilhosos que são muito fortes em grande parte da música brasileira.
10. Li alguns comentários na internet de algumas pessoas que assistiram o seu show no Womad 2004. Alguns citavam muito a energia e entusiasmo durante a apresentação. De onde vêm essa notável energia e entusiasmo? O que inspira você quando faz e toca sua música?
Eu não sei de onde vem, mas está sempre ali. É apenas essencial para mim, tocar e tocar para outras pessoas também. É minha vida. Quando eu estou no palco eu nunca fico nervoso, por exemplo. As pessoas me perguntaram: N’faly você é de um vilarejo muito pequeno, e quando você está no Cambridge Folk Festival ou no WOMAD, por exemplo, você fica nervoso? Não, eu nunca fiquei nervoso. A música é tudo pra mim, bem como levar isto para as pessoas.
11. Como foi participar do Womad 2004, um dos mais importantes festivais de World Music do mundo e o que você espera desta próxima edição do festival em Madrid?
Foi fantástico me apresentar no WOMAD 2004, com meu próprio grupo Dunyakan. Já me apresentei em vários WOMADs, mas neste eu estava levando minha própria música. Era um sonho meu, e foi maravilhoso ver este sonho se realizar. Eu estava muito orgulhoso em ter tido esta oportunidade.
Nós estamos muito emocionados em participar do WOMADrid, o primeior festival WOMAD em Madrid, e tão agradecidos em ter recebido esta oprotunidade. Eu sei que será um grande sucesso. Eu levei meu grupo para a Espanha anteriormente, para o Bidasoafolk, e foi uma experiência maravilhosa. Nós estamos muito empolgados para levar a nossa música para novas pessoas.